Chamada para submissão de artigos – Coletânea “Fronteiras em disputa: etnografias em tempos extremos”

Fronteiras em disputa: etnografias em tempos extremos

PATRICIA BIRMAN, CORNELIA ECKERT e CAMILO BRAZ (organização)

Esta coletânea tem como objetivo a publicação de pesquisas etnográficas que explorem várias fronteiras territoriais, culturais, raciais e outras que se encontram em disputa. Supomos que as fronteiras estão permanentemente em construção, envolvendo forças, grupos em solidariedade ou em antagonismo e poderes variados. Fronteiras de gêneros,entre territórios, entre religiões, entre moralidades, entre valores e direitos eventualmente são acionadas, eliminadas ou simplesmente se constituem como espaços de conflito e tensão. Fronteiras nesse sentido são provisórias e emconstantes disputas. Romper fronteiras pode significar em certas circunstâncias atropelar privilégios para expandirdireitos onde esses estão cerceados.

Onde a moral e os bons costumes parecem estar garantidos por fronteiras estáveis que afirmam o que é certo e errado, já surgiram em momentos e circunstâncias variadas pessoas LGBTQIA+ expandindo os limites do aceitável e abolindo certas fronteiras de exclusão e modos de segregação. Da mesma forma, não se esperava recentemente que indígenassaíssem de diferentes regiões para ocupar o centro político de Brasília. E mais, ganhassem voz no STF, e defendessem seus direitos à vida em fóruns nacionais e internacionais. As universidades tiveram suas portas mais abertas,respondendo a exigências de ingresso de pessoas que historicamente não poderiam nelas ingressar. A política de açõesafirmativas diminuiu a desigualdade racial e étnica nos espaços universitários. O que não significa que não se possa emum futuro próximo reforçar muros e fechar passagens. Diversas fronteiras, na atualidade, estão mais do que nunca emdisputa, por ameaças que buscam restaurar antigos limites, com a volta de todos a supostos devidos lugares que se ousou abandonar. Frente a políticas governamentais que pretendem a abolição de todos os direitos já conquistados,observa-se uma verdadeira guerra de posições em todos os campos: disputa-se cada limite, cada gesto, cada corpo “fora do lugar”.

O intuito dessa coletânea é, assim, motivar a escrita antropológica sobre fronteiras em disputa na atualidade. Sobre formas de “guerras de posição”, digamos assim. Caminhos, circuitos e formas de construir “brechas” e “passagens” em fronteiras têm se estreitado diante das políticas de devastação de direitos que se enfrenta mais agudamente, no Brasil,desde 2016.

Gostaríamos de sugerir que perguntas sobre fronteiras para esta coletânea visam, de modo geral, a publicação de trabalhos focados em certas situações que colocam em xeque a estabilidade das muitas fronteiras da desigualdade em planos diversos.

Onde começam e onde acabam certos poderes que garantem fronteiras que percebemos como “locais”? Quais as marcas corporais que indicam pertencimentos a territórios e a localidades específicas? Como se tem (re)inventado o corpo considerando a mobilidade possível e as reinvenções de suas marcas? Como se busca inventar formas de ruptura defronteiras morais, físicas e territoriais? Como a reinvenção da cultura, dos gestos, da mídia e dos corpos tem sido capazde criar caminhos e contornar limites impostos? Quais “sentinelas” guardam a obediência a comportamentos específicos, segundo critérios morais, políticos e econômicos?

A menção aos Direitos Humanos muitas vezes é feita sem referência às fronteiras que dispositivos nacionais e internacionais impõem a migrantes, pessoas precarizadas, sem- teto, faveladas, pessoas LGBTQIA+ e moradoras de periferias submetidas a violências cotidianas. Analisar disputas em torno de fronteiras visa oferecer a leitores e leitorasdescrições etnográficas que demonstrem de quantos combates, obstáculos e resistências no cotidiano as fronteiras dependem, a partir de movimentos constantes que sempre ameaçam as suas supostas estabilidades.

Os artigos que compõem esta coletânea partem de variados campos, contextos e recortes que valorizam as produções antropológicas de variadas regiões do país, realizadas por pesquisadores/as em diferentes etapas de formação. Trata-se de um fazer etnográfico centrado na ação, que suspeita de limites supostamente bem demarcados e coerentes. Taiselementos ganham relevância em um cenário de crises de diversas ordens, marcado necropoliticamente pela espera, pela incerteza – um cenário, enfim, de tempos extremos que exigem da Antropologia o exercício de seu posicionamentocrítico às normatividades, convenções, fronteiras, hegemonias e desigualdades sociais.

Assim, selecionamos alguns eixos temáticos para a articulação das questões de fronteiras enunciadas: 1) Violência, periferias urbanas, conflitos e resistências: este eixo reúne etnografias realizadas em contextos urbanos periferizados, marcados por distintas formas de violência e de violação de corpos articuladas pelas intersecções, sobretudo, entre raça, classe, gênero e idade. Foca, também, na articulação entre variados segmentos e atores/atrizes sociais como forma de disputar o cotidiano e evitar a morte e o terror; 2) Política, religião e laicidade: este eixo reúneetnografias sobre processos de (in)visibilidade da religião e de suas interfaces com as políticas institucionais, incluindodebates e conflitos em torno de variadas concepções de laicidade, tomada aqui como um campo com fronteiras emdisputa. Assim, tais trabalhos apresentam discussões antropológicas sobre religião, conservadorismos, marcadores sociais de diferença (raça, gênero, sexualidade, classe, idade); 3) Conflitos ambientais, etnicidade e territórios: Nesteeixo são reunidas etnografias sobre as negociações em torno de conflitos ambientais no Brasil contemporâneo e versam sobre as tensões em torno dos direitos territoriais e demarcação de terras, num cenário de flexibilização e de ataques adireitos constitucionais já conquistados. Além disso, tratam das dinâmicas de organização e de mobilização política por parte de grupos diretamente afetados pela resolução negociada de conflitos ambientais e a defesa dos Direitos Humanos;4) Marcadores sociais de diferença e acesso à saúde: este eixo dispõe de etnografias que se debruçam sobre o peso de marcadores sociais de diferença e como esses são negociados e disputados frente às exigências de acesso à saúde e a redes de cuidado. Além disso, reúne perspectivas centradas nas fronteiras e disputas entre itinerários terapêuticos e saberes biomédicos, bem como nas diversas formas como as pessoas mobilizam recursos e estratégias diversas em busca da solução de seus problemas de saúde.

Por meio desses eixos, os trabalhos aqui reunidos pretendem efetivar a radicalidade do fazer antropológico em tempos extremos no Brasil contemporâneo.

Edital de submissão de propostas e artigos para a coletânea “Fronteiras em disputa: etnografias em tempos extremos”

Este edital destina-se ao recebimento de propostas de artigos para a coletânea “Fronteiras em disputa: etnografias emtempos extremos”, organizada por Patricia Birman, Cornelia Eckert e Camilo Braz, membros da Diretoria da ABA no biênio 2021-2022. A obra será publicada pela Associação Brasileira de Antropologia.

1. Critérios de Participação

1.1 – Os artigos podem ser enviados individualmente ou em co-autoria. 

1.2 – Poderão submeter propostas individualmente membros da Associação Brasileira de Antropologia, em dia com suas anuidades e título de Doutorado defendido há no máximo 7 anos. 

1.3 – No caso de artigos escritos em co-autoria, apenas o/a primeiro/a autor/a deve atender ao item anterior. 

1.4 – As contribuições devem ser originais e inéditas. 

1.5 – Os textos devem ser escritos em língua portuguesa. 

2 – Envio de Propostas 

2.1 – As propostas de artigos devem ser enviadas em formato Microsoft Word, OpenOffice ou RTF. 

2.2 – As propostas de artigos devem estar em formato A4, espaçamento 1,5, fonte Times New Roman de 12 pontos, parágrafo de 1,5 cm. 

2.3 – As propostas de artigos devem conter Título (até 200 caracteres com espaços), Autoria (indicando filiação institucional, titulação máxima e grau de pertencimento à ABA) e resumo expandido (até 2800 caracteres com espaços). 

2.4 – As propostas de artigos devem ser encaminhadas via mensagem de e-mail para o endereço da secretaria da ABA: aba@abant.org.br. No assunto da mensagem, deve-se escrever “Proposta de Artigo – Coletânea Fronteiras em disputa: etnografias em tempos extremos”. 

2.5 – O prazo máximo para envio de propostas de artigos é 30/04/2022

3. Formatação das propostas de artigos aceitas 

3.1 – Os artigos aceitos para a publicação devem ser enviados em formato Microsoft Word, OpenOffice ou RTF. 

3.2 – Os textos devem estar em formato A4, espaçamento 1,5, fonte Times New Roman de 12 pontos, parágrafo de 1,5 cm, com figuras e tabelas inseridas no texto, além de não utilizarem espaços para alinhar tabelas, somente o tabulador. 

3.3 – Os artigos deverão ter entre 50.000 e 70.000 caracteres com espaços (incluindo bibliografia, tabelas e diagramas). 

3.4 – Citações deverão estar em corpo 10, com recuo de 1,5 cm. 

3.5 – Ao fim do artigo deverão ser listadas as referências utilizadas no texto, em ordem alfabética e alinhadas à esquerda, observando-se as regras da ABNT (NBR 6023: 2018), exemplificadas nos modelos abaixo: 

– Livro: 

LÉVI-STRAUSS, Claude. As estruturas elementares do parentesco. Petrópolis: Vozes, 1982. 

PRZEWORSKI, Adam; STOKES, Susan C.; MANIN, Bernard (Eds.). Democracy, accountability, and representation. New York: Cambridge University Press, 1999. 

CALHOUN, Craig et al. (ed.). Classical sociological theory. 2. ed. Malden, MA: Blackwell, 2007. 

– Capítulo de livro: 

WOLF, Eric R. Parentesco, amizade e relações patrono-cliente em sociedades complexas. In: FELDMAN-BIANCO, Bela; RIBEIRO, Gustavo Lins (org.). Antropologia e poder: contribuições de Eric Wolf. Brasília: Ed. UnB; São Paulo: Imprensa Oficial, 2003. p. 93-114. 

LANZARO, Jorge. Tipos de presidencialismo y modos de gobierno en América Latina. In: LANZARO, Jorge (comp.). Tipos de presidencialismo y coaliciones políticas en América Latina. Buenos Aires: Clacso, 2003. p. 15-49. 

– Artigo em periódico: 

BONELLI, Maria da Gloria; BARBALHO, Rennê Martins. O profissionalismo e a construção do gênero na advocacia paulista. Sociedade e Cultura, Goiânia, v. 11, n. 2, p. 275-284, 2008. 

– Tese ou dissertação: 

TAMASO, Izabela Maria. Em nome do patrimônio: representações e apropriações da cultura na cidade de Goiás. Brasília, 2007. 787 f. Tese (Doutorado em Antropologia) – Universidade de Brasília, Brasília, 2007. 

– Trabalhos apresentados em eventos: 

BAQUERO, Marcelo. A democracia e capital social na América Latina: Brasil para além do debate acadêmico. In: CONGRESO LATINOAMERICANO DE CIENCIA 

POLÍTICA, 1, 2002, Salamanca. Política en América Latina: I Congreso Latinoamericano de Ciencia Política. Salamanca: Ediciones Universidad Salamanca, 2002. p. 837-858. 

– Artigo em jornal: 

BURITY, Joanildo A. Confronto de discursos. O Povo, Fortaleza, p. 6-7, 22 mar. 2008. 

– Texto disponível na internet: 

SILVA, Mauro Marcelo de Lima e. Crimes da era digital. Net, Rio de Janeiro, nov. 1998. Seção Ponto de Vista. Disponível em: http://www.brazilnet.com.br/contexts/brasilrevistas.htm. Acesso em: 28 nov. 1998. 

– Complementos 

Figuras, desenhos, gráficos, mapas e tabelas devem ser incluídos no texto, com boa resolução. 

4. Envio dos artigos das propostas aceitas 

4.1 – As contribuições aceitas devem ser encaminhadas via mensagem de e-mail para o endereço da secretaria da ABA: aba@abant.org.br. No assunto da mensagem, deve-se escrever “Artigo – Coletânea Fronteiras em disputa: etnografias em tempos extremos”. 

4.2 – O prazo máximo para envio dos artigos das propostas aceitas é 31/10/2022. 

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