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Informativo nº 22/2019 | 19/12/2019

 
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Informativo nº 22/2019 | 19/12/2019
2019: ano de luta para a antropologia brasileira
destaques da ABA
Mensagem de Boas Festas

Desejamos que o ano de 2020 possa renovar as esperanças de cada um/a de nós.
Boas Festas!
Aproveitamos para agradecer o empenho de todas e todos que colaboraram com a ABA e viabilizaram o trabalho da Antropologia Brasileira.
Diretoria da ABA (2019-2020)

Recesso de final de ano

Comunicamos que a Secretaria Administrativa da ABA estará de recesso coletivo entre os dias 23 de dezembro de 2019 e 01 de janeiro de 2020. Portanto, as atividades serão retomadas no primeiro dia útil do ano (02 de janeiro de 2020).

32ª Reunião Brasileira de Antropologia – RBA

A 32ª Reunião Brasileira de Antropologia – RBA, com tema Saberes Insubmissos: diferenças e direitos, será realizada entre os dias 07 e 10 de julho de 2020, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro UERJ (Campus Maracanã).

Site: http://www.32rba.abant.org.br/
Cronograma: https://www.32rba.abant.org.br/cronograma
Confira as regras: https://www.32rba.abant.org.br/conteudo/view?ID_CONTEUDO=412
Dúvidas: 32rba@abant.org.br

Nota sobre assassinato de Seu Vermelho, Comunidade Quilombola de Rio dos Macacos, Simões Filho – Bahia

Viemos por meio dessa nota expressar nosso pesar diante da notícia do assassinato brutal do Sr. José Izidio Dias, conhecido como Seu Vermelho, 89 anos, na noite de 25 de novembro de 2019, em sua residência. Ele era um dos integrantes mais idosos da Comunidade Quilombola de Rio dos Macacos, localizada no município de Simões Filho, estado da Bahia. Embora a motivação do crime seja desconhecida, há indícios de latrocínio ou vingança motivada por disputa de terras. O grupo, atualmente composto por 67 famílias, vivencia conflitos territoriais desde a chegada da Marinha no local nos anos 1970, e não possui até hoje fornecimento de água, luz, saneamento básico e escola. Até mesmo o acesso ao território se dá exclusivamente por uma via de chão batido, monitorada pela Marinha. A coletividade foi certificada pela Fundação Cultural Palmares em 2011 e iniciou seu processo de regularização fundiária junto ao INCRA no mesmo ano. Nesse mesmo período foi instaurado um Inquérito Civil Público no MPF/BA que acompanha a situação. Entretanto, dos 306 hectares identificados e reivindicados, apenas 104 deverão ser titulados em prol da comunidade, devido aos interesses e restrições impostos pela Marinha.  Apesar de a Portaria de Reconhecimento do Território Quilombola ter sido publicada em 2015, até hoje o processo não foi concluído. A demora na regularização fundiária acirra os conflitos existentes, dificulta o acesso do grupo aos direitos básicos e propicia a ocorrência de tragédias. Desse modo, ao tempo que o Comitê Quilombos se solidariza com o sofrimento e sentimento de perda dos familiares e vizinhos de Seu Vermeho, reforçamos as solicitações de investigações sobre o caso para identificação, julgamento e punição dos responsáveis e a reivindicação da titulação do território quilombola de Rio dos Macacos.

Brasília, 29 de novembro de 2019.

Associação Brasileira de Antropologia – ABA e seu Comitês Quilombos

Leia aqui a nota em PDF.

Nota sobre assassinato de Elitânia Souza da Hora, Comunidade Quilombola Tabuleiro da Vitória, Chachoeira – Bahia

Viemos por meio dessa nota expressar nosso pesar diante da notícia do assassinato de Elitânia Souza da Hora, 25 anos, no dia 27 de novembro de 2019, no centro da cidade de Cachoeira, perpetrado por um ex-namorado contra o qual ela tinha uma medida protetiva, configurando-se em mais um caso de feminicídio. Ela era uma jovem liderança da Comunidade Quilombola de Tabuleiro da Vitória, localizada na zona rural do município, e cursava o sétimo semestre do curso de Serviço Social na Universidade Federal do Recôncavo. Ao passo em que o Comitê Quilombos se solidariza com o sofrimento e sentimento de perda dos familiares, vizinhos, amigos e colegas de Elitânia, reforçamos as solicitações para que o criminoso, que já se encontra detido pela polícia, seja devidamente julgado e punido.
Brasília, 29 de novembro de 2019.

Associação Brasileira de Antropologia – ABA e seu Comitês Quilombos

Leia aqui a nota em PDF.

Nota de repudio às declarações do Ministro da Educação Abraham Weintraub

A Associação Brasileira de Antropologia (ABA), por meio de sua Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia, vem a público manifestar repúdio às declarações do atual Ministro da Educação, Abraham Weintraub, em entrevista ao Jornal da Cidade.

Onze meses se passaram do Governo de Jair Bolsonaro e a agenda do Ministério da Educação, marcada pela substituição do ministro Ricardo Vélez Rodríguez pelo atual Abraham Weintraub, ainda não se apresentou consolidada na elaboração e execução do Plano Nacional de Educação (PNE), bem como na gestão de suas secretarias e instituições. Ao contrário, sua acepção se mostra inconstante e precária, gerando controversos projetos que são alvo de críticas recorrentes de vários setores da comunidade científica e da opinião pública.

Não bastasse uma agenda com produção tão contestável e equivocada no sentido da elaboração de projetos como Programa Escola Sem Partido, Educação Sexual e Lava Jato da Educação, a realização dessas propostas se encontra ancorada num cenário político onde proferir impropérios e ofensas no formato de grotescos deslizes da língua portuguesa tornou-se a especialidade do representante do Ministério da Educação desde que assumiu o cargo.

Extrapolando os limites do cargo que ocupa, Abraham Weintraub, não bastasse até então suas manifestações néscias, resolveu investir em discurso criminoso afirmando que as universidades federais são espaço de “doutrinação”, que abusam da autonomia universitária para cultivar “plantações extensivas de maconha” (sic) ou mesmo desenvolver “laboratório de droga sintética de metanfetamina”. Além de afirmar que a autonomia universitária, prevista no artigo 207 da Constituição Federal, é uma falácia.

Ao acusar as Universidades Públicas de promoverem práticas ilícitas, o Ministro da Educação reafirma o seu singular compromisso com a desmoralização da educação pública superior, manifestando preconceitos incorporados a um arranjo político inconsistente. Deliberadamente insiste em propagar o ódio contra instituições que prestam os mais relevantes serviços ao país em se tratando do desenvolvimento da pesquisa, do ensino e da extensão, pilares da educação universitária no Brasil. Seu discurso calunioso ultrapassa as fronteiras do imponderável impactando a vida do cidadão.

A ABA exige a apuração de responsabilidade criminal mediante as supracitadas difamações e reitera o repúdio às calúnias difundidas pelo atual Ministro da Educação a tão notáveis e consagradas instituições. Por fim, a ABA se integra a todos os segmentos da sociedade brasileira que condenam tais acusações criminosas e reclamam providências.

Brasília, 09 de dezembro de 2019.

Associação Brasileira de Antropologia – ABA e sua Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia

Leia aqui a nota em PDF.

Nota da ABA contra a manifestação do Ouvidor Geral do Ministério Público Estadual do Pará

A Associação Brasileira de Antropologia (ABA), por meio dos seus Comitês Quilombos e Laudos Antropológicos e da sua Comissão de Assuntos Indígenas, vem a público expressar total repúdio à fala do Ouvidor Geral do Ministério Público Estadual do Pará, Procurador Ricardo Albuquerque, durante uma palestra a estudantes de Direito de uma faculdade particular em Belém, no dia 26 de novembro de 2019.

A respeito de sua afirmação de que indígenas no país “não gostam de trabalhar” e de que não haveria uma dívida histórica com relação à escravidão, ressaltamos dois pontos fundamentais. Primeiro, que o tráfico de africanos e africanas para as Américas foi fomentado por interesses comerciais, e não devido a uma suposta “preguiça” ou “incapacidade” da população indígena de trabalhar, como o é atestado por uma vasta e respeitada produção histórica, antropológica e sociológica, nacional e internacional. Em seguida, que a sociedade e o Estado brasileiros, por meio de diversos dispositivos legais e de políticas públicas, têm reconhecido, sim, a existência de uma dívida histórica coletiva para com a população negra e quilombola e os povos indígenas. Os indicadores sociais, tão dispares em quesitos como escolaridade, renda, expectativa de vida etc., entre a população auto definida como branca e aquela igualmente auto definida como parda e negra, expõem de modo cristalino as consequências dos estereótipos e do tipo de estrutura socioeconômica e cultural que os produzem. Sobre tal quadro é que se tem fundamentado o reconhecimento coletivo da dívida, passo fundamental para uma sociedade que se pretende ver como respeitosa da dignidade da população humana que a constitui, sem qualquer forma de discriminação negativa.

Um particular agravante da fala do Procurador está no fato de ser ele uma pessoa pública, cujas manifestações adquirem, portanto, um sentido público, a ressoar no exercício deste seu cargo.

Cabe notar, ainda e, sobretudo, que os direitos destes segmentos sociais afetados estão registrados e garantidos na Constituição Federal de 1988, incluindo o direito de defesa contra as manifestações de racismo, sendo a Lei Nº 7.716 de 5 de janeiro de 1989 bem clara na tipificação dos crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor ou etnia.

Brasília, 29 de novembro de 2019.

Associação Brasileira de Antropologia – ABA e seu Comitês Quilombos e Laudos Antropológicos e da sua Comissão de Assuntos Indígenas

Leia aqui a nota em PDF.

A PRESUNÇÃO DE IMPUNIDADE SEGUE SEU CURSO: ATÉ QUANDO VAMOS PERMITIR?

Em 1º de outubro passado a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) chamou a atenção da sociedade brasileira para o risco da presunção de impunidade se tornar algo socialmente epidêmico em relação aos povos indígenas no país. Eram inúmeros os sinais que nos chegavam, de diferentes regiões, e que nos levavam a pensar que estamos avançando, como sociedade, para uma situação extremamente perigosa: entre uma política historicamente já fracassada de assimilação e a possibilidade de extermínio programado de uma parcela da população brasileira.
Os indígenas, de fato, tornaram-se cada vez mais vulneráveis, com suas terras sendo vistas sempre com maior frequência como objeto de desejo para satisfazer interesses gananciosos de vários segmentos – como fazendeiros, garimpeiros, madeireiros, caçadores ilegais, etc. – e estes obtendo em suas pretensões a legitimação ideológica por parte do Governo Federal. Por exemplo, é de fato incrível e lamentável como, neste contexto, caracterizado pelo ódio com relação a quem manifesta e persegue um modo de vida e de desenvolvimento diferentes daqueles promovidos pelo poder dominante, no lugar de considerar e proteger as terras indígenas como garantia constitucionalmente sancionada da preservação e reprodução da bio e sócio diversidades,  o governo chegue nestes dias a propor utilizá-las para ampliar a produção de carne bovina, algo que teria enormes consequências e impactos socioambientais.
É a partir deste contexto, de escalada também do ódio e da consequente violência por este gerada que, como havíamos já remarcado em outubro, vem se produzindo uma cada vez mais longa e diversificada lista de vítimas entre indígenas, com a presunção de impunidade seguindo assim seu curso. Recentemente esta lista teve sua triste ampliação por uma série de homicídios de indígenas Guajajara no estado do Maranhão. Primeiramente, no dia 1º de novembro, na Terra Indígena Araribóia, Paulinho Guajajara e Laércio Souza Silva, da aldeia Lagoa Comprida, sofreram uma emboscada por parte de madeireiros enquanto estavam caçando. O primeiro foi morto a tiros e o segundo saiu desta agressão gravemente ferido. A seguir, no dia 7 de dezembro, outros indígenas foram surpreendidos a tiros enquanto percorriam a moto uma rodovia entre as aldeias: os caciques Firmino Prexede Guajajara, da aldeia Silvino (T.I. Cana Brava) e Raimundo Benício Guajajara (T.I. Lagoa Comprida) perderam a vida, e outros dois indígenas ficaram feridos.  Por fim, apenas seis dias após estes últimos assassinatos, o jovem de 15 anos, Erisvan Soares Guajajara, que havia se deslocado da Terra Indígena Araribóia junto com o pai para comprar mantimentos na cidade de Amarante, no dia 13 de dezembro foi encontrado neste local brutalmente morto e esquartejado em um campo de futebol.  
Até quando será permitido este paulatino massacre? Esta é uma questão que requer resposta. Como pesquisadores e cidadãos, manifestamos nossa indignação e repúdio a esta situação. É preciso e urgente haver mobilização pública que seja democrática, plural e igualitária, pois, em realidade, todas e todos estamos hoje sob os riscos altamente deletérios da presunção de impunidade.

Brasília/DF, 20 de dezembro 2019

Associação Brasileira de Antropologia – ABA e sua Comissão de Assuntos Indígenas – CAI

Leia aqui a nota em PDF.

Noticias da Comissão de Relações Internacionais – 16 dez 2019

V ENCONTRO MEXICANO BRASILEIRO DE ANTROPOLOGIA

Realizou-se na Cidade do México, entre 18 e 20 de novembro, o V-EMBRA, organizado por colegas da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) , de la Universidad Autónoma Metropolitana (UAM-Iztapalapa e Lerma) e do Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropología Social (CIESAS-CDMX). O evento congregou vários colegas brasileiros e mexicanos de diferentes instituições, além de autoridades acadêmicas da antropologia brasileira como Carmen Rial (Presidente do World Council of Anthropological Associations), que deu a conferência de abertura sobre antropologias do mundo, Miriam Grossi (presidente da ANPOCS), Maria Filomena Gregori (presidente da ABA) e Antônio de S. Lima (representante de área na CAPES) que fez a conferencia de encerramento. Mais uma vez, a interação e troca de ideias entre mexicanos e brasileiros foi altamente frutífera. O próximo evento ocorrer á em 2021, em Florianópolis (SC).

Prêmio Geertz, AAA

O livro sobre o movimento espiritual do curador espírita João de Deus de autoria da Profa. Dra. Cristina Rocha (antropóloga brasileira e Professora Titular da Universidade de Western Sydney, Austrália) recebeu o prêmio Clifford Geertz da Sociedade de Antropologia da Religião da American Anthropological Association. A cerimônia de premiação ocorreu no congresso da AAA em Vancouver em 21 de novembro de 2019. JOHN OF GOD: THE GLOBALIZATION OF BRAZILIAN FAITH HEALING Oxford University Press, 2017, 288 páginas.

Diálogos internacionais

A Presidente da ABA, Maria Filomena Gregori (ABA/Brasil) participou da reunião do WCAA (World Council of Anthropological Associations) em Vancouver, Canadá, no dia 23 de novembro de 2019. Também participaram da reunião presidentes de diversas Associações de Antropologia, entre as quais Martha Patricia Castañeda Salgado (CEAS/México), Clara Saraiva (APA/Portugal), Ellen Judd (Canadá), Junji Kuizumi (IUAES/Japão), Danilyn Rutheford (Wenner-Gren/EU), Sarah Green (EASA/UE), Gordon Mathew (Hong Kong), David Shankland (RAI/Inglaterra), Virginia Dominguez (WCAA/EU), Alex Barker (AAA/EU), representantes da Filandia, Itália, e Bélgica.

ABA na AAA/CASCA 

Political Climates: democracies at risk, intolerances and their impacts on Anthropology foi o titulo da Mesa Redonda proposta pela Comissão Internacional da ABA no congresso da Associação Americana de Antropologia/Associação Canadense de Antropologia, em Vancouver, realizada no dia 20 de novembro 2019. Participaram Maria Filomena Gregori (UNICAMP), Miriam Grossi (UFSC), Felipe Fernandes (UFBA) e Carmen Rial (UFSC). Maria Filomena Gregori e Miriam Grossi falaram também na mesa redonda Weathering the Tropical Trump: precarious rights and Brazilian justice in Brazil climate authoritarian populism, sobre o contexto politico no Brasil, coordenadas pelo antropólogo James Holston (UCBerkeley) e por Gustavo Azenha (Columbia University).

Entrevista de Adriana Dias, membro do Comitê Deficiência e Acessibilidade, que denuncia laços entre extrema direita e políticas contra pessoas com deficiência

Vibrant

Confira o último número da Vibrant:

v-16-2019: “Safeguarding, its Genealogy and Governance. Two Essays on UNESCO’s Convention for the Safeguarding of Intangible Cultural Heritage”. http://www.vibrant.org.br/new-issue-volume-16/.

Novos Debates

Novos Debates publica um novo número. O novo projeto visual marca a retomada da publicação que, num primeiro momento, busca resgatar a periodicidade. Por esta razão, publicamos o volume 2017 e em breve publicaremos os números 2018 e 2019. O grande número de contribuições enviadas na chamada de trabalhos para o presente número apenas confirma a importância de Novos Debates para a comunidade antropológica. Convidamos, assim, todas e todos a prestigiar as contribuições de colegas filiados a instituições brasileiras e estrangeiras, a quem agradecemos.
http://novosdebates.abant.org.br/

in memoriam
Falecimento de Alba Zaluar (19/12/2019)

Obituário para Alba Zaluar
Maria Filomena Gregori

Com grande pesar, a ABA informa o falecimento de Alba Maria Zaluar. Ela nasceu em 1942 no Rio de Janeiro e lutava bravamente, há aproximadamente dois anos, contra um câncer de pâncreas. O sepultamento será realizado no dia 20 de dezembro, às 10 horas, no cemitério São João Batista.
Alba Zaluar foi uma dessas personalidades que jamais deixou de expressar o que pensava, de interpelar as noções arraigadas e de senso comum e de se comprometer com temas relevantes na história do país. Desde a juventude, o interesse pelas dinâmicas culturais e políticas nacionais se manifestou na sua proximidade com a União Nacional de Estudantes, junto às atividades no Centro Popular de Cultura. Esse era o momento em que cursou a graduação em Ciências Sociais na Faculdade Nacional de Filosofia, concluída em 1965. Reduto universitário conhecido pela efervescência da militância política estudantil, a Faculdade Nacional de Filosofia foi objeto da instauração de Inquérito Policial Militar após o Golpe de 1964, situação que, como já é bastante sabido, veio a arriscar a segurança pessoal e a permanência no Brasil de muitos jovens talentosos. Alba e seu então marido, em contexto de risco de perseguição e de prisão, mudaram para a Inglaterra tendo lá permanecido de 1965 a 1971.

A vida no exílio e com filhos pequenos não esmoreceu a energia de Alba que iniciou estudo de Pós-Graduação na Universidade de Manchester, experiência a que ela atribuía grande importância nas suas escolhas teóricas e metodológicas. Ela costumava dizer que foi em Manchester que formou a forja que estruturou sua trajetória e a sua carreira. Seja pela qualidade multidisciplinar, ou pelo apreço e rigor da pesquisa empírica, o convívio com a Antropologia Social (onde o grupo de Max Gluckman era muito ativo), com a Sociologia Urbana e com História Social constituiu a base da sua contribuição no deciframento etnográfico da violência urbana no Brasil. Essa estadia proveitosa resultou, anos depois, na organização da coletânea Desvendando as Máscaras Sociais (Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 1975) que reúne textos clássicos sobre dimensões variadas da pesquisa antropológica, obra de referência até hoje em cursos de graduação.

Quando voltou ao Brasil, ela concluiu seu curso de mestrado no Museu Nacional (UFRJ) sob a orientação de Roberto da Matta, em 1974, com uma pesquisa que retomou criticamente os estudos de comunidade, através da análise de promessas e festas para santos, chamando atenção para impacto prático do catolicismo popular. Essa dissertação foi publicada no livro Os Homens de Deus: um estudo dos santos e das festas no catolicismo popular (Rio de Janeiro: Zahar, 1973).

Em 1979, ela ingressou no doutorado do Programa de Antropologia Social da USP, sob a orientação de Eunice Ribeiro Durhan. Em uma de suas entrevistas, Alba assinala que no período, além do aprofundamento da formação antropológica, discutiu mais detidamente conceitos de Ciência Política (em um momento de revisão das teses de Althusser) e pôde articular seu interesse sobre processos sociais e culturais com a discussão sobre o futuro do Brasil e sobre a democratização. Foi no doutorado que ela realizou a primeira pesquisa empírica de fôlego na Cidade de Deus que resultou na tese defendida em 1984 e na publicação de um dos estudos mais ricos sobre o cotidiano, as aspirações, os valores, as manifestações associativas e recreativas de uma população exposta à pobreza e à violência. Na linhagem da crítica à Teoria da Marginalidade e ao conceito de cultura da pobreza, A Máquina e a Revolta (São Paulo: Brasiliense, 1984 – a 3.a edição em 2002) traz uma análise pioneira a expor, nos moldes qualitativos da investigação antropológica, o início das organizações criminosas do tráfico de drogas, bem como a retroalimentação entre a dinâmica dessas organizações e a polícia. O livro não se resume, porém, à exposição dramática desse cenário violento. Nele, Alba mostrou o vigor da vida cultural e política local, fazendo com que essa seja uma das etnografias mais importantes sobre movimentos sociais urbanos no final da ditadura militar e início da redemocratização.

Em meados da década de 70, Alba passou a ser professora do Departamento de Antropologia da Unicamp onde defendeu, em 1991, a Livre Docência com a tese, publicada em 1994, Cidadãos não vão ao Paraíso (Campinas: Editora da Unicamp, 1994). Em seguida, ela se aposentou da Unicamp e ingressou como docente de Antropologia no Departamento de Ciências Sociais do Instituto de Medicina Social da UERJ, tendo se tornado Professora Titular, em 1995. Em 1996, ela publicou Condomínio do Diabo (Rio de Janeiro: Revan/Editora da UFRJ, 1996) e Da Revolta ao Crime S.A. (Rio de Janeiro: Moderna, 1996). Todos esses livros, ao que caberia acrescentar Violência, Cultura e Poder (Rio de Janeiro: FGV Editora, 2000) e A Integração Perversa: pobreza e tráfico de drogas (Rio de Janeiro: FGV Editora, 2004) trazem resultados de pesquisas quantitativas e qualitativas sobre políticas públicas para combater a violência urbana e minimizar os efeitos da criminalidade, e acompanham de modo sistemático as articulações paradoxais entre corrupção política e policial e a organização criminosa nos moldes do mercado capitalista contemporâneo. Suas contribuições analíticas andam par a par com a ênfase no bom material empírico, feito a partir de pesquisa de campo e documental e com a coragem de não sucumbir à ingenuidade ou a um atalho intelectualista que recorre, no caso de diversos estudos antropológicos, ao relativismo cultural. Alba assumia posições e não se intimidava diante de uma boa polêmica. Prova disso está na produção adensada de artigos em jornais de expressão nacional como O Globo, o Jornal do Brasil e a Folha de São Paulo (na qual foi colunista semanal entre 2006 e 2008).

Importante remarcar que Alba foi uma profissional com significativo trânsito internacional, seja como visiting professor em Stanford ou Berkeley, seja nas variadas participações em congressos e como palestrante e também era integrante do Conselho Editorial da Vibrant desde 2013.

Em 2012, Alba Zaluar recebeu o Prêmio Roquete Pinto da Associação Brasileira de Antropologia.

Leia aqui o obituário em PDF.

Falecimento de June C. Nash (1927-2019)

É com pesar que noticiamos o falecimento aos 92 anos da antropóloga e feminista June Caprice Nash. Doutora em Antropologia Social pela University of Chicago (1960) y professora emérita da City University of New York (CUNY), June realizou investigações de campo em Burma, Guatemala, Bolívia, México e Estados Unidos. Viveu com famílias indígenas campesinas maya em Chiapas, com trabalhadores e trabalhadoras mineiras na Bolívia, e com trabalhadores e trabalhadoras da indústria elétrica estado-unidense General Eletric, em Pittsfield. Entre seus temas de interesse estão a análise de processos relacionados com o trabalho e desemprego, modernização e globalização e suas consequências sociais, culturais e econômicas especialmente para as mulheres. Sua atuação como antropóloga se caracterizou pelo compromisso e pela colaboração com os sujeitos com os quais desenvolveu suas pesquisas. É considerada a primeira antropóloga academicamente preparada para trabalhar com famílias mineiras na Bolívia andina. Sua abordagem transcendia a análise política e econômica tradicional, para interessar-se pelas raízes culturais da consciência de classe das comunidades com as quais trabalhou.

Entre seus trabalhos publicados, vários hoje considerados clássicos da antropologia social do trabalho, mencionamos In the Eyes of the Ancestors: Belief and Behavior in the Maya Community (1970); We Eat the Mines and the Mines Eat Us: Dependency and Explotation in Bolivian Tin Mining Communities (1979); Fron Tank Town to High-Tech: The Clash of Community and Industrial Cycles (1989): e Crafts in the World Market: The Impacto f International Exchange on Middle American Artisans (1993). Nenhum dos seus livros foi ainda publicado no Brasil.
Em castelhano, o Editorial Antropofagia de Buenos Aires (Argentina) traduziu e publicou Visiones Mayas: El Problema de la Autonomía en la Era de la Globalización (2006); Comemos a las Minas y las Minas nos Comen a Nosotros: Dependencias y Explotación en las Minas de Estaño Bolivianas (2008); Un año en la Vida de un Campamento Minero Boliviano (2008); e Hegemonía Empresaria en Estados Unidos: Claves para una Etnografía de los Ciclos Industriales en las Comunidades Urbanas (2015). Uma bolsa Guggenheim, em 1971, lhe permitiu organizar o material de duas autobiografias de trabalhadores de minas de estanho bolivianas, que foram publicadas em castelhano: He Agotado mi Vida en la Mina (Buenos Aires, Nueva Visión, 1976) e Dos Mujeres Indígenas: Basília, Facundina (México, Instituto Indigenista Interamericano, 1976).

No link abaixo poderá ser acessado o filme documentário He agotado mi vida en las minas, realizado entre 1976-1977 e dirigido por June Nash, Juan Rojas y Eduardo Ibañez. Por meio da autobiografia de um mineiro boliviano tem-se acesso a história do ascenso e queda da indústria mineira e do movimento político mineiro boliviana entre os anos 1930-1970. O vídeo é narrado por June com legenda em castelhano:

https://www.youtube.com/watch?v=ArRmlxonr2w&feature=youtu.be

June Nash deixa na literatura e em todos os que tiveram o privilégio de conhece-la um legado que perdurará por muito tempo.

Falecimento de Bartomeu Melià (06/12/2019)

É com pesar que noticiamos o falecimento na manhã desta sexta-feira, 6 de dezembro de 2019, por volta das 4h30, em Assunção, Paraguai, do antropólogo e linguista espanhol e paraguaio honorário Bartomeu Melià Lliteres. Jesuíta, nasceu em Porreras, Espanha em 1932. Se radicou no Paraguai em 1954, onde iniciou seus estudos da língua e da cultura Guarani, tendo convivido com os indígenas Guarani, Kaingang e Enawené-nawé no Paraguai e no Brasil. Obteve seu doutorado na Universidade de Estrasburgo (França), em 1969, com a tese intitulada: La creación de un lenguaje cristiano en las misiones de los guaraníes en el Paraguay. Foi professor de etnologia e de cultura Guarani na Universidad Católica de Asunción, onde presidiu o Centro de Estudios Antropológicos. Foi diretor das revistas Suplemento Antropológico e Estudios Paraguayos, até 1976, quando teve de sair do Paraguai em decorrência das denúncias que fez sobre o genocídio em curso dos Ache-Guayaki. Desenvolveu pesquisas no Brasil a partir de 1977, alternando investigações nos dois países nos campos da etnolinguística e etnohistória. Foi um dos principais incentivadores e promotores de programas de educação intercultural bilíngue tanto no Paraguai, como no Brasil, Bolívia e Argentina. Até seus últimos dias manteve-se um crítico defensor dos direitos dos povos indígenas, denunciando o massacre sistemático vivido pelos povos indígenas, principalmente em decorrência do avanço da fronteira extrativista e do agronegócio sobre os seus territórios. Obras recentes: Educación indígena y alfabetización (2008) e El don, la venganza y otras formas de economía guaraní (2004).

Entrevista concedida à Fondation Maison des Sciences del l’Homme, em 17 de março de 2006, onde Bartomeu Melià descreve o início da sua carreira de pesquisador linguista e antropólogo no Paraguai: https://www.canal-u.tv/video/fmsh/historia_lengua_y_sociedad_en_paraguay.28975.

eventos
Eventos no Exterior
Congresso Internacional de Ciências Sociais e Humanas
A obra de Gilberto Freyre nas Ciências Sociais e Humanas na contemporaneidade

Data: 25 e 26 de fevereiro de 2020
Local: Universidade de Salamanca – Espanha
Informações: https://fundacion.usal.es/es/a-obra-de-gilberto-freyre-nas-ciencias-sociais-e-humanas-na-contemporaneidade
O prazo para enviar propostas de comunicação vai até 19 de janeiro de 2020

Conferência Anual da Sociedade Canadense de Antropologia – CASCA

Data: 30 de maio a 2 de junho de 2020
Local: Western University – Canadá
Informações: https://anthropology.uwo.ca/casca2020/index.html

II Encontro Internacional Todas as Artes/Todos os Nomes

Data: 6 e 7 de julho 2020
Local: Faculdade de Letras da Universidade do Porto – Portugal
Informações: https://todasartes.eventqualia.net/pt/inicio/
Incriçoes de propostas até 31 de janeiro de 2020

6º Congresso Internacional de Antropologia – AIBR

Data: 28 a 31 de julho de 2020
Local: Vila Real / Portugal
Informações: http://2020.aibr.org/pt/
Prazo para envio de propostas (painéis, comunicações livres, posters, audiovisuais, ateliês, apresentação de livros e formatos especiais) encerra dia 31 de dezembro de 2019

XIV Jornadas Andinas de Literaturas Latino-americanas (JALLA)

Data: 04 e 07 de agosto de 2020
Local: Universidad Nacional Autónoma do México
Informações: https://jalla.lat/

oportunidades
Pós-graduação
Concurso de Bolsas de Pós-Doutorado CRIDAQ, Edição 2020-2021

Os membros do Centro de Pesquisa Interdisciplinar em Diversidade e Democracia (CRIDAQ) têm o prazer de oferecer, para o ano acadêmico 2020-2021, um estágio de pós-graduação de US $ 35.000 (salário bruto não renovável). Este estágio deve ser usado para liderar um projeto que se enquadre nos eixos e temas de pesquisa do CRIDAQ, sob a supervisão de um de seus membros, professor de uma universidade de Quebec. Prazo para apresentação de candidaturas: 17 de janeiro de 2020. Informações: https://cridaq.uqam.ca/bourses-et-concours/.

publicações
Chamada para artigos
Horizontes Antropológicos

A Revista Horizontes Antropológicos, publicada pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, recebe chamada de artigos para nosso número 59 – Antropologia da Criança. A submissão de artigos está aberta até 31 de janeiro de 2020: http://seer.ufrgs.br/horizontesantropologicos.

Revista Vivência

A revista Vivência, periódico científico-acadêmico ligado ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, divulga chamada de artigos para o dossiê "Mobilidades e fronteiras: Perspectivas antropológicas de gênero, sexualidade e suas interseções". As/os autores/as devem submeter seus textos, seguindo normas do periódico, por meio do portal https://periodicos.ufrn.br/vivencia/index até o dia 09 de dezembro de 2019. Prorrogado para o dia 31 de janeiro de 2020.

Revista Monções

A Monções, Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), está selecionando artigos para o Dossiê "Crime e Relações Internacionais”. A revista aceita artigos inéditos em português, espanhol, francês ou inglês. O prazo máximo de submissão é 23 de dezembro de 2019 – http://ojs.ufgd.edu.br/index.php/moncoes/announcement/view/171.

Revista Hawò

Hawò (canoa na língua Iny/Karajá) é a nova revista semestral, publicada pelo Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás como marca dos 50 anos da instituição. Tem como missão fomentar e divulgar a produção científica realizada por pesquisadores de instituições reconhecidas, nacional e internacionalmente, que venham contribuir para a geração, preservação e difusão de novos conhecimentos nas áreas relacionadas à Antropologia Social e Cultural, Antropologia Biológica, Arqueologia, Etnolingúistica, Museologia, Arte e Cultura Popular, Patrimônio Cultural, Educação e Etno-História, em seu caráter interdisciplinar.  A revista está inserida no sistema OJS e tem fluxo contínuo de recebimento de artigos. O primeiro volume será lançado em janeiro/fevereiro de 2020 e submissão aberta até setembro do mesmo ano. Para maiores informações https://www.revistas.ufg.br/hawo/about.

Revistas – Novos números

Horizontes Antropológicos – Horiz. antropol. vol.25 no.55 Porto Alegre set./dez. 2019  Epub 02-Dez-2019 – http://dx.doi.org/10.1590/s0104-71832019000300001.

Revista Plural – Antropologías desde América Latina y del Caribe – Número 4 (julho-dezembro de 2019) – http://asociacionlatinoamericanadeantropologia.net/revista-plural/numero04/.

Revista Plural, da Associação Latinoamericana de Antropología (ALA) – Ano 2, N° 4 – http://asociacionlatinoamericanadeantropologia.net/revista-plural/numero04/.

Revista Latino Americana de Antropologia do Trabalho – Vol 3, No 6 (2019): http://www.ceil-conicet.gov.ar/ojs/index.php/lat/issue/view/25.

Revista Iluminuras – volume 20, n. 51 (2019), Publicação Eletrônica do Banco de Imagens e Efeitos Visuais – NUPECS/LAS/PPGAS/IFCH e ILEA/UFRGS, intitulada: Dimensões Antropológicas da Alimentação – https://seer.ufrgs.br/iluminuras/issue/view/3762.

Lançamentos – Livros 2019

SANTOS, Ricardo Ventura; GUIMARÃES, Bruno Nogueira; DE CAMPOS, Marden Barbosa; AZEVEDO, Marta Maria do Amaral (Orgs)(2019). Entre Demografia e Antropologia: povos indígenas no Brasil. Rio de Janeiro. Editora: Fiocruz.
https://editorafiocruz.commercesuite.com.br/colecoes/saude-dos-povos-indigenas/entre-demografia-e-antropologia-povos-indigenas-no-brasil

notícias da mídia/outras
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Um retrato do Brasil: os índios no Censo 2020

Seria tão bom se o Censo 2020 do IBGE pudesse apurar quantos brasileiros estão tristes, deprimidos ou raivosos. Ou alegres e esperançosos. Tive vontade de falar isso – mas me contive – no X Seminário de Demografia dos Povos Indígenas no Brasil: na iminência do Censo Demográfico 2020, realizado em 4-5 de dezembro no Rio, organizado pelo IBGE, a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) e a Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP). Estou consciente de que recenseadores são sérios, não bisbilhotam emoções, só xeretam estado civil, idade, sexo, religião, grau de instrução, renda, emprego e babados similares sobre a dinâmica populacional.

Brasil em uma trilha trágica e venenosa, diz especialista da ONU

GENEBRA/BRASÍLIA (13 de dezembro de 2019) O Brasil trilha o trágico caminho de desmantelamento das instituições, já enfraquecidas, arduamente construídas para proteger as pessoas e o meio ambiente de exposições tóxicas, alerta um especialista em direitos humanos da ONU.

“Eu gostaria de agradecer ao Governo do Brasil pelo convite e pela discussão franca e aberta, durante as últimas duas semanas”, disse Baskut Tuncak, relator especial da ONU sobre substâncias tóxicas, ao divulgar seus achados preliminares em uma conferência de imprensa após uma visita de duas semanas ao Brasil.

“À luz de uma série de crimes ambientais terríveis, desde o rompimento de barragens de rejeitos à uma epidemia de envenenamentos por pesticidas, , seria razoável esperar que o país adotasse os mais rigorosos controles ambientais e ocupacionais para o controle de substâncias e resíduos perigosos. Ao contrário, vemos ocorrer o oposto, o país regride, possibilitado pela sensação perversa de impunidade entre os criminosos que envenenam as pessoas, tomam suas terras e destroem o meio ambiente.”

O Relator Especial sublinhou o rompimento das barragens em 2015 e 2019. A primeira uma barragem de rejeitos operada por uma joint venture entre a Vale e a BHP Billiton colapsou, matando 18 e impactando a vida de mais de 3.000.000 de pessoas, incluindo povos indígenas e comunidades tradicionais. O segundo caso, envolvendo uma das mesmas empresas, a Vale, matou quase 300 pessoas.

“Após anos de negação por parte do governo e das empresas envolvidas, os impactos da exposição à lama tóxica enxurrada no desastre de 2015 agora são visíveis e demonstram ligação com o adoecimento daqueles que foram expostos. No entanto, as empresas responsáveis continuam abusando do seu poder impedindo que informações de saúde e segurança sejam publicadas.” Diz o Relator Especial.

“O Brasil está descumprindo sua obrigação constitucional de proteger os direitos humanos da exposição a substâncias tóxicas e resíduos perigosos, eliminando ministérios cruciais, restringindo o financiamento para funções essenciais, eliminando programas importantes, restringindo as instancias de participação cívica e deixando de aplicar as leis e decisões judiciais que existem para proteger os direitos humanos de exposições tóxicas.

“Ao mesmo tempo que constantemente criminaliza e ataca aqueles que lutam corajosamente para defender seus direitos à vida, à saúde e ao equilíbrio do meio ambiente, dentre outros direitos humanos reconhecidos pela Constituição do Brasil.”

“O Brasil segue permitindo o uso de dezenas de pesticidas altamente perigosos, banidos por muitos outros países,” ele disse. “As ações ou falta de ação do Governo liberou uma onda catastrófica de pesticidas tóxicos, desmatamento e mineração que envenenarão as gerações futuras, casos ações urgentes não forem tomadas para realinhar o Brasil com o caminho do desenvolvimento sustentável.”

Tuncak também ressaltou o aumento acirrado no desmatamento e o número de incêndios na Amazônia e nas savanas brasileiras com possível influência de sinalizações do governo sobre mudanças nos regimes de uso da terra, em prol de acelerar e aumentar a produção da agricultura e mineração.

“Muitos dos problemas ilustram o desrespeito histórico das empresas no Brasil pelos direitos e decência humana. A comunidade de Piquiá de Baixo está envenenada há décadas. Embora progresso foi feito no sentido de reassentar essa comunidade tão resiliente, em casas onde possam viver com dignidade, as políticas caóticas e os cortes orçamentários do Governo ameaçam abandonar essa comunidade para suportar mais abuso dos seus direitos pela Vale, Viena Siderúrgica e Gusa Nordeste por tempo indeterminado. "

“Por décadas, o Brasil ajudou o mundo a encontrar soluções para questões cruciais de meio ambiente e de direitos humanos por meio do trabalho brilhante da sociedade civil e pesquisadores. É desanimador ver as autoridades desmantelando tantos canais de colaboração e até mesmo tentando criminalizar esses atores. Uma mudança radical na relação entre Governo e Sociedade civil é crucial para melhorar o difícil cenário que eu observei,” concluiu Tuncak.

O Relator Especial apresentará suas conclusões e recomendações completas ao Conselho de Direitos Humanos da ONU em setembro de 2020.

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Baskut Tuncak é relator especial sobre as implicações de direitos humanos relacionadas com a gestão e eliminação ambientalmente racional de substancias e resíduos perigosos (tóxicos)

Os relatores especiais são parte dos Procedimentos Especiais do Conselho de Direitos Humanos, maior órgão de especialistas independentes do Sistema de Direitos Humanos das Nações Unidas e designa o mecanismo independente que investiga e monitora fatos do Conselho que responde tanto a situações específicas de países ou questões temáticas em todas as partes do mundo. Estes especialistas trabalham de forma voluntária; não são funcionários da ONU e não recebem salário por seu trabalho. São independentes de todos os governos ou organizações e servem em sua capacidade individual.

http://www.global.org.br/blog/leia-na-integra-declaracao-do-relator-da-onu-sobre-substancias-toxicas-em-visita-ao-brasil/

Salvaguardar o Iphan é investir no Brasil: alerta ao povo brasileiro em defesa do nosso país

As entidades abaixo subscritas denunciam, por meio deste, o processo de desmonte do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em curso desde 2016 e agravado hoje com um brutal corte orçamentário, com a nomeação de pessoal desqualificado para suas superintendências regionais e um cenário de incertezas sobre o perfil do futuro dirigente da autarquia.

Há mais de oito décadas, o Iphan se manteve como o carro chefe da política de Patrimônio Cultural em nosso país. O Instituto não apenas trabalhou continuadamente em todos os momentos na construção de nossa ideia de nação. Por meio das políticas de preservação, o Instituto dinamiza a economia das áreas em que atua, resgatando cidades históricas do ostracismo, diversificando e qualificando as atividades produtivas envolvidas na conservação dos bens tombados, preservando e difundindo nossos saberes e fazeres, criando atrativos e fomentando o turismo.

O projeto de desmonte do Iphan é subordinado ao projeto de destruição das políticas culturais de conjunto. Tal ataque às nossas instituições veio à tona em maio de 2016 quando se tentou extinguir o Ministério da Cultura e o próprio Iphan, por meio da criação de uma Secretaria de Patrimônio paralela. Na ocasião, a sociedade civil, por meio de suas organizações, se mobilizou contra o golpe, em defesa de nossa Cultura e do Patrimônio Nacional, obtendo uma vitória parcial.

Mas os ataques à nossa cultura voltam a recrudescer no atual governo. A pretexto de combater um suposto “marxismo cultural” – uma lamentável contradição em termos –, forças externas se aliam a setores retrógrados interessados na mera manutenção do privilégio de poucos com vistas a combater nossa cultura de conjunto e a destruir nossa memória e nosso patrimônio em particular.

Na prática, o Governo Federal hoje vem empreendendo uma política de desmonte velado ao Iphan: por meio de um corte da ordem de 72% em seu orçamento; por meio de sua subordinação à pasta do Turismo, numa inversão total de valores; por meio da nomeação de superintendentes sem experiência ou formação na área de patrimônio em estados importantes para nossa memória como Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul ou Paraná, meramente por sua filiação política a partidos da base do governo; por meio, enfim, da ameaça de nomeação de uma cúpula nacional do órgão – incluindo sua presidência – sem experiência ou qualificação na área de Patrimônio, seguindo uma agenda de destruição das instituições nacionais.

Há dois dias, foi exonerada a presidente Kátia Bogéa, à frente da autarquia desde 2016 e servidora aposentada do órgão, com subsequente nomeação de Luciana Féres – arquiteta com experiência na área de patrimônio – e anulação desta mesma nomeação poucas horas depois. Esse processo claudicante evidencia as pressões pela desarticulação do Iphan e sua entrega ao obscurantismo.

Trata-se de uma política de desmonte. Mas destruir nosso patrimônio nacional e sua principal instituição reguladora é destruir a construção histórica de nossa ideia de nação: um trabalho de décadas hoje ameaçado.

O Fórum de Entidades em Defesa do Patrimônio Cultural Brasileiro, formado em outubro de 2019 como uma resposta a tais ataques, alerta a toda a nação para tal ação , conclamando todas as organizações populares a mobilizarem-se em defesa de nossa cultura e de nosso Instituto de Patrimônio Histórico e Nacional na mesma medida em que a atual Administração intensifica seus ataques. Não apenas pela preservação de nossa memória, mas também porque salvaguardar o Iphan é investir no Brasil.

Brasília, 14 de dezembro de 2019.

Fórum de Entidades em Defesa do Patrimônio Cultural Brasileiro

https://www.facebook.com/pg/forumpatrimoniobr/
forumpatrimoniobr@gmail.com

– Aba – Associação Brasileira de Antropologia
– Abap – Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas
– Abea – Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura
– Anpuh – Associação Nacional de História
– Anparq – Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo
– Anpocs – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais
– Anpege – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia
– Anpur – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional
– Icomos Brasil – Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios
– FNA – Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas
– Fenea – Federação Nacional dos Estudantes de Arquitetura e Urbanismo
– IAB – Instituto dos Arquitetos do Brasil
– Docomomo Brasil – Seção Brasileira do Comitê Internacional para a Documentação e Conservação de Edifícios, Sítios e Conjuntos do Movimento Moderno

Atenção: As ideias, opiniões e informações expostas no informativo e nas redes sociais da ABA são de responsabilidade dos seus autores e autoras, não refletindo, necessariamente a opinião ou posição da ABA.

Associação Brasileira de Antropologia
Antropologia Brasileira: saberes e diálogos na defesa de direitos e diferenças (2019-2020)


Presidente: Maria Filomena Gregori (UNICAMP)
Vice-Presidente: Sérgio Luís Carrara (UERJ)
Secretária Geral: Thereza Cristina Cardoso Menezes (UFRRJ)
Secretário Adjunto: Luiz Eduardo de Lacerda Abreu (UnB)
Tesoureiro: João Miguel Manzolillo Sautchuk (UnB)
Tesoureira Adjunta: Izabela Tamaso (UFG)
Diretoras:
Angela Mercedes Facundo Navia (UFRN)
Manuela Souza Siqueira Cordeiro (UFRR)
Patrice Schuch (UFRGS)
Patricia Silva Osorio (UFMT)

Informativo ABA
Edição: Roberto Pinheiro
Diagramação: Roberto Pinheiro

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